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Viver sobre estacas

- Senti-me como se estivesse no Apocalipse Now, naquela cena em que eles vão de lancha a descer o rio – dizia-me o Jorge, durante um almoço na praia de Matosinhos, poucos dias antes da minha partida.

Estas palavras e a expressão de serenidade com que as disse, foram suficientes, como um fotografia ou uma boa história poderiam ter sido, para eu colocar um pin mental no meu mapa da viagem. Rio Dulce, Guatemala.

Descubro, já depois de estar na Guatemala, que Rio Dulce fica a meio do caminho entre onde eu estou e para onde quero ir. Efectivamente, para ir da zona de Petén, onde fica Tikal e El Remate, para as cidades de Guatemala e Antigua tem que, inevitavelmente, passar-se por lá.

Recordo-me das palavras do Jorge. E da sua expressão. O meu cronograma inicial, feito numa folha de Excel, previa uma passagem breve pela Guatemala, apenas os dias necessários para visitar Tikal e conhecer Antigua. Mas sinto que por aqui há mais coisas para viver e aprender e, por isso, decido parar em Rio Dulce. Ou teria já decidido antes de partir, durante aquele almoço na minha querida praia de Matosinhos?

Em Rio Dulce vive-se “no”, “do” e “para” o rio. As deslocações são feitas de barco, as casas e hotéis estão montados sobre estacas e a comunidade comunica entre si por rádio amador. Há várias marinas que recebem navegadores e as suas histórias de viagens e aventuras fascinam-me.

Não há muito para fazer por aqui, além de meia dúzia de tours organizados que não me apetece fazer e a visita ao castelo de San Filipe. Dou mergulhos e tomo banhos no rio; espalmo-me numa das cadeiras da pequena plataforma que o hotel tem amarrada por uma corda ao embarcadouro. No Algarve costumava haver destas plataformas. Eram amarelas e eu costumava nadar até lá e voltar.

Decido que quero alugar um pequeno barco para descer rio acima. Ou abaixo, não sei. Quero ir sozinho, sem “guia” condutor. Ninguém me aluga, claro! Não tenho carta de marinheiro e nem há turistas a pedir tal coisa, logo não há oferta. A coisa mais parecida que consigo e que me permite ir sozinho é um jet ski. É caro e está um bocado fora do contexto mas, por essa altura, já estou completamente obstinado e nada nem ninguém me conseguirá segurar, nem mesmo eu próprio. Ás vezes, quanto cismo com uma coisa, sou assim. Uma vez, vejam bem, há pouco mais de três anos, cismei que até completar trinta e cinco anos faria uma viagem à volta do mundo. Tenho trinta e três.

Negoceio o tempo e o respectivo valor e… “dá-lhe giz!”. Depois de fazer a curva do castillo, entro no gigantesco lago Izabal e o rio inquieto transforma-se numa imensa auto-estrada líquida, de piso liso e cristalino. Cai numa fina cortina de nevoeiro, que me dá a sensação de entrar em alto mar, no desconhecido. Não ouço o barulho do motor e o jet ski parece apenas planar sobre aquela superfície espelhada. Sinto o vento a bater-me na cara. Sou livre.

Estou apenas três dias adiantado em relação ao plano. Mas as ondas de La Libertad (El Salvador) podem esperar uma semana.

Rio Dulce
Tortugal

Um homem com uma catana na mão

Vem aí um homem com uma catana na mão. Faz vinte minutos que aqui estou, na beira da estrada, à espera do autocarro e ainda não passou vivalma. E agora vem aí um homem com uma catana na mão.

A Lydia, do hotel, disse o autocarro passa a cada meia hora mas, se calhar, enganou-se. E o homem vem aí, ao cimo da estrada, a descer muito devagar, quase a cambalear. Com uma catana na mão.

Deve vir cansado da jornada de trabalho. Ou bêbado. Se calhar é melhor assim, se tiver que lutar com ele não se deve aguentar das pernas. Por outro lado, a bebedeira pode dar-lhe para a tolice e atacar-me apenas por desabafo.

Quantas semanas de arroz e feijão valerá a máquina que trago na mochila? E a minha camisola da Quiksilver? O que é que o impede de, ao passar por mim, dar-me uma catanada e deixar-me a morrer na beira da estrada? Faz vinte minutos que não passa vivalma. Seriedade? Honestidade? O que significará isso ao lado de uma barriga vazia e mais três a chorar em casa? Não sei, nunca tive que mentir ou enganar por fome. Mas já o fiz, por outra razão qualquer que agora nem me lembro. Quanto mais por fome.

O homem vem aí, com a catana na mão. Se calhar é melhor atravessar a estrada para o outro lado para me pôr a salvo. Mas… e se ele vem de boa fé? Vai perceber e sentir-se insultado. Humilhado.

Já sei. Quando ele chegar até mim, dou dois passos para o meio da estrada, como se estivesse a espreitar se vem o autocarro. A Lydia, do hotel, disse que passava de meia em meia hora. Assim afasto-me um pouco sem nunca o perder de vista.

Agora! O homem olha para mim, abranda ainda mais o passo e parece hesitar. Dou mais dois passos na direcção contrária, fazendo de conta que vou continuar a pé. Ele ainda olha para trás… mas segue o seu caminho.

Vai ali um homem com uma catana na mão. Vai ali, ao fundo da estrada, e parece cansado da jornada de trabalho. Se calhar, apetecia-lhe parar e falar com alguém. Faz vinte minutos que não passa vivalma.

Caçar gambozinos

Se a memória não me falha, os Tarântula eram um grupo de música que o meu amigo Luis costumava ir ver ao Pichote, um bar ali (ou melhor aí) no Campo Alegre. Nunca fui com ele, e também nunca gostei do Pichote, mas sempre tive alguma curiosidade em conhecer os Tarântula. Os nomes, às vezes, despertam-me a curiosidade.

Em La Casa de Don David, o hotel onde estou hospedado em El Remate, a aldeia mais próxima das ruínas de Tikal, há tarântulas no jardim. Contam-se mesmo histórias de algumas que entraram pelos quartos para fazer uma visita aos hóspedes.

El Remate é o meu primeiro destino na Guatemala. O mini-bus que saiu de Belize City às 10:00 da manhã (as pranchas tiveram que entrar e sair pela janela!) deixou-me, quatro horas depois, mesmo à porta do hotel, que encontrei quando pesquisava na Internet coisas sobre Tikal e cuja história vale bem a pena conhecer.

A visita a Tikal foi feita bem cedo, às 6:00 da manhã, e com muito pouca gente. Confesso que não sou um esmerado visitante de ruínas ou outro tipo de monumentos. Dispenso quase sempre qualquer tipo de guia e, fora um pormenor ou outro que me chama realmente a atenção, basta-me conhecer a história em traços gerais. Gosto mais da big picture e de deambular por ali sem rota marcada, ir fazendo os meus filmes e imaginando histórias mirabolantes ali passadas.

Lembro-me uma vez que fui a Paris com a minha mãe e a minha irmã e não quis entrar no Louvre, preferi ficar cá fora nos jardins a correr e a brincar. Era novo ainda, a minha mãe podia ter-me obrigado. Mas também não me obrigou a ir à catequese e hoje sinto que tive muito mais liberdade, e consequentemente responsabilidade, na escolha das minhas convicções religiosas. Como sempre vivi entre duas mulheres, também pude ser eu a escolher o meu clube de futebol, conforme gostava ou não da cor dos equipamentos ou a proximidade do estádio em relação à minha casa.

Mas voltando às tarântulas… Na segunda noite, intrigado pelo facto daquele senhor e a mulher andarem por ali às voltas no jardim a apontar a lanterna para os buracos, perguntei:

- Desculpe, estão a procura de quê?
- Tarântulas! – responde entusiasmado.
- E isso é bom?
- Depende. Mas como não há televisão…

Não era isso que eu queria dizer. O que eu queria saber era se o facto de haver tarântulas à solta não seria perigoso e razão suficiente para me pôr dali a mexer naquele instante!

- Na verdade, elas são muito envergonhadas, escondem-se das pessoas e raramente fazem mal. E mesmo que fizessem, a picada não é mais grave que uma picada de abelha. Quer vir procurar connosco?

Concordei e fui calçar as sapatilhas, não fosse o diabo tecê-las. Mas nessa noite, pus uma tolha enrolada a tapar a frincha da porta do quarto.

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