... ou: Preocupações de um surfista rumo ao desconhecido.
Reparem também na minha tentativa de "falar brasileiro".
De: André Parente
Para: Paulinho
Assunto: Amigo de Portugal – Pacasmayo
Oi Paulinho!
Daqui André, de Portugal. Nos conhecemos em Pacasmayo.
Estou indo hoje lá para Pichilemu. Vou tentar ficar nas Cabanas Waitara.
Vc conhece bem aquilo? Vai entar um grande swell a semana toda (2,5-4 metros). Estará grande demais?
Um abraço
André
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Ola André,
Só vi seu email no dia de hoje, espero não estar respondendo tarde demais…
O tamanho do swell creio que não será problema, pois se ficar realmente grande, em Punta de Lobos pode surfar as sessões mais de inside, que são menores, e de excelente qualidade. Porém, quando o swell der uma “acalmada”, não perca a oportunidade de conhecer –secret spot-. Seguem abaixo algumas fotos que fizemos o ano passado, quando estivemos lá...como falei, o acesso não é muito fácil, porem acho que as fotos vão te animar!!!
A melhor maneira de ir é com um carro 4x4. Ai no centro de Pichilemu existe um hotel que costuma hospedar surfistas (não me recordo o nome). Eles também alugam carro, e tem uma pickup vermelha que deve resolver. Deve seguir rumo ao norte, até –texto cortado-. O ideal é juntar um grupo de 3 ou 4 pessoas, e de preferência alguém que já conheça o caminho...parece complicado, mas o lugar deve te recompensar à altura!!!
Abraços
Paulinho
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Olá Paulinho,
Obrigado pela resposta. O meu email é que foi tarde de mais… devia ter escrito antes!
Acabei de chegar e estou nas Cabanas Waitara, num quarto muito maneiro. É noite, nem deu para perceber bem o local ainda, mas amanha já vou checkar tudo. Não sabia que havia um bom pico mesmo em frente… ainda bem!
Essas fotos estão fantásticas! Durante os dias que estiver por aqui vou tentar fazer contactos para tentar conhecer –secret spot-. Depois te digo alguma coisa.
Entretanto, aqui em Punta de Lobos… você sabe como é que o pessoal que não está de carro vai até lá? E como faz com a roupa? Deixa na areia ou tem algum sítio que guardam?
Foi muito legal ter conhecido vocês no Peru. Como vocês brasileiros dizem: “nota 10”!
Um abraço
André
Valeu brother! ;)
Cláudia, Paulinho, Roger e eu. Chicama, Peru.
Amigos de viagem
Caderno diário
Lista de coisas a fazer após o assalto na Costa Rica.
Rascunho do post "Era a música", quando estava sem computador. Na página da direita também algumas notas sobre Puerto Viejo e um esboço de um mapa de orientação, com o tamanho da ondulação para os dias seguintes do lado esquerdo.
Placa improvisada para pedir boleia de Pavones para Conte, no dia em que passei a fronteira para o Panamá.
Na Austrália. Do lado esquerdo: uma lista de coisas a fazer e as previsões de vento e ondulação para Torquay. Do lado direito: uma linha de orientação com as praias de surf na costa sul de Melbourne e algumas notas sobre cada uma.
Vietnam. Do lado esquerdo: o câmbio para Euros, os primeiros planos de viagem no país, alguns preços e horários de aviões. Do lado direito: as duas ruas onde me aconselharam a dirigir à chegada a Ho-Chi-Min (às 4 da manhã!), escritas pela mão das minhas companheiras de carruagem... e mais uma lista de coisas a fazer!
E a tentar explicar-lhes onde fica Portugal. Tenho um jeito para desenho do caraças!
O caléndario de viagem na África do Sul.
Ano zero
Durante as últimas semanas de viagem, algumas pessoas foram-me perguntando se estava preparado para o regresso e outras, que já passaram temporadas fora do país, alertaram-me para o desassossego e desapontamento dos primeiros tempos.
Habituado a 240 dias de novidades e aventuras constantes, a coisa que mais me aflige é estar “tudo na mesma”, como se tivesse estado fora apenas uma semaninha de férias. As mesmas ruas, as mesmas casas, os mesmos empregos, as mesmas queixas, as mesmas preocupações, os mesmo sonhos… ou, pior ainda, a falta deles. E a perspectiva da facilidade com que a vida se torna nessa linha contínua, lisa e previsível.
“Que país é que gostaste mais?” e “E agora, já pensaste o que vais fazer?” são as perguntas que mais me fazem e às quais não consigo responder objectivamente.
É claro que sei que o estilo e o clima húmido da América Central me assentaram que nem uma luva, que a Indonésia continua a ser o derradeiro destino em termos de surf e que as cores e cheiros de África são ainda sentidos a explorar. E é claro que já actualizei o meu Curriculum para poder responder a anúncios de emprego e que tenho algumas ideias a vaguear na cabeça, que precisam de ser postas no papel (leia-se folha de Excel).
Mas, para já, estou em período de ressaca e, se bem me lembro, isso só passa à custa de Guronsan ou muito descanso. Dizem é que pode demorar meses… ;)
Desejo a todos um Bom Ano de 2008, com votos de continuar a “ver-vos” por aqui a divertirem-se com textos de flashback que pretendo colocar de cada país, com muitas dicas e sugestões práticas, que também vão servir para reviver a viagem e, quem sabe, com algumas viagens relâmpago que possa fazer entretanto.
Para mim, também desejo um bom ano. Mas tenho plena consciência que 2007 vai ser difícil de bater.
Desmame
Aliás, estou mesmo a imaginar a conversa no MSN entre dois jovens marinheiros da época, que terá antecedido a mais um feito importante da nossa história.
- Yo, Bartol(omeu)! Tá tudo?
- Grande Vasquinho, como é?
- Qual é aquele site maravilha que usaste quando passaste o Cabo?
- Espera, já te envio… os gajos não falham. Vais-te mandar?
- Lembras-te daquela chavala que conheci no Hi5? Estou a pensar pegar numas naus e ir ter com ela.
- É isso maior! Mas ela é de onde? Sabes o caminho?
- Diz que é da Índia ou lá o que é… mas vou indo e logo vejo. E se curtir aquilo ainda fico lá uns tempos.
Esta terra está cheia de referências aos navegadores Portugueses (nomes de ruas, locais, praias, monumentos, etc) e é difícil não sentir algum orgulho ao pensar que toda esta costa foi, literalmente, desbravada por “nós”. Sem internet nem previsões climatéricas, sem mapas ou instrumentos de navegação, com a costa sempre à vista. Sem sequer saberem se o mundo acabava na linha do horizonte e se as naus iam resvalar por ali abaixo. Já fomos grandes e este é o país onde as pessoas me olham com mais admiração quando digo que sou Português. E não é só por causa do Cristiano Ronaldo.
Durante a semana que passei em Jeffreys Bay as previsões eram bem claras em todos os sites que consulto regularmente: não ia entrar nenhuma ondulação e, mesmo que entrasse, só iriam estar dois dias de off-shore (bom vento). Ainda assim, levantava-me todos os dias com os primeiros raios de luz a entrar pela janela para confirmar as condições. É que, às vezes, “os gajos enganam-se”. É muito raro, mas acontece. E eu estava à espera de um milagre. “Concede-me só mais isto” – pedia eu nos finais de tarde que passava sentado nos banquinhos de Supertubes, lembrando-me das rezas que fazia com os meus amigos em frente à praia de Leça a pedir ondas para o dia seguinte, ainda não havia esta coisa dos sites. E ainda tínhamos idade para fazer esses disparates!
No único dia em que, possivelmente, teria conseguido andar em Jeffreys, decidi pegar no carro e ir até Cape St. Francis (mais uma referência portuguesa) para surfar em Seal Point, uma direita que tinha identificado dois dias antes.
- Porque é que não entras? Sempre é JBay e assim já podes dizer que surfaste aqui – insistia a Caroline, enquanto víamos o amigo Waren a tentar pôr-se de pé.
Mas eu não quis estragar o mito. Preferi não entrar a fazer uma sessão ruinosa no “melhor point-break de direita do mundo”. Preferi deixar o sonho vivo e o alfinete espetado no meu planisfério, a provocar-me todos os dias durante os próximos anos. “Tenho tempo”, pensei.
Depois de quase 3.000 km a bater praias e apenas três surfadas em condições abaixo da média, já não “Boa Esperança” que resista. Em Cape Town, este vento que não dá tréguas entra off-shore em muitos sítios mas já estou cansado de vaguear como um tonto pelas praias mais selvagens da região à espera de, contra todas as probabilidades, encontrar um tesouro escondido. Não há nada a fazer e eu já sabia antes de vir: é Verão e não é época de muitas ondas. Por isso há que mudar o chip e aproveitar o resto, que também é muito.
Ou, como alguém me disse, estas ultimas semanas são, à respectiva escala, como quando vamos de férias e o voo de regresso é ao início da tarde, deixando-nos algum tempo que já não dá para aproveitar muito. Nessa manhã arrumamos as coisas, vamos uma última vez à cidade, fazemos algumas compras de última hora, enviamos um último postal. Revemos as fotos tiradas, lembramo-nos dos melhores momentos… e fazemos planos para o regresso, prometendo a nós próprios que “a partir de agora vai ser diferente”. Antecipamos o reencontro com as pessoas que nos são queridas. Os abraços no aeroporto, os jantares de histórias e galhofa, as sessões de fotos, as surfadas nas “nossas” praias.
“Sobe para o Marrocos” – diz-me no Messenger o Paulinho, um brasileiro que conheci no Peru. “Estão grandes ondulações no Atlântico Norte e assim já fica pertinho de casa”.
Mmm… com mais umas semaninhas em cima era capaz de ser boa ideia. Mas eu já prometi em casa regressar para o Natal.
Periodo de espera
Esta era uma das frases publicitárias de uma conhecida marca de surf cujo proprietário era, se não estou enganado, natural daqui mesmo, de Jeffreys Bay. Li-a muitas vezes nas revistas e há uns tempos, folheando antigos cadernos da escola, também a li escrita com a minha própria letra no meio de outros disparates que me fizeram rir ao relembrar.
Na verdade, esta mensagem transmite bem a principal actividade do surfista: a espera. Tanto que o principal circuito mundial de surf (WCT), que actualmente mais parece uma mega surf-trip de luxo pelas melhores ondas do mundo, tem uma coisa que se chama “período de espera”. Ao contrário do que acontecia há alguns anos atrás, quando os campeonatos eram realizados em praias de centros urbanos capazes que atrair muito público e o round final acontecia, invariavelmente, entre as 15:00 e as 16:00 de Domingo, hoje os campeonatos acontecem nas melhoras ondas do mundo, independentemente da dificuldade de acesso e da possibilidade da presença de publico. Além disso, há as datas de início e fim do evento têm uma grande janela de intervalo, o tal “período de espera” (entre 10 e 20 dias), para se poder escolher os melhores dias e horas para meter as eliminatórias na água. Ao contrário do futebol, do ténis, do golf e de muitos outros desportos, no surf não é possível (ainda) fabricar um estádio ou um campo no local que bem nos apetecer e a especulação imobiliária o permitir e, só assim, os organizadores conseguiram garantir que as provas são, quase sempre, disputadas em condições perfeitas.
Esta foi uma mudança crítica para o surf de competição e para o renascer da sua magia mas terá sido uma decisão, admito eu, muito difícil de tomar devido, principalmente, a uma possível falta de patrocinadores de peso dispostos a investir em campeonatos sem público. A forma encontrada para “compensar” esta diminuição de publico nas praias resultou na melhor cobertura web que alguma organização já conseguiu fazer (o Google Earth não é live e a Nasa e o FBI não contam!). Que eu me lembre, o surf foi o primeiro e continua a ser o único desporto a oferecer (oferecer mesmo) webcast em directo de 100% das provas do seu circuito principal (WCT) e de um número significativo do circuito de qualificação (WQS).
O que me lembra de avisá-los, estimados leitores, que em 2008 vamos ter, pela primeira vez na história, um surfista português (Tiago “Saca” Pires) a correr as etapas do WCT, onde apenas concorrem os 44 melhores surfistas do mundo! 44… em todo o mundo, meus senhores e minhas senhoras! E, já agora, que, se tudo continuar a correr bem, em breve poderemos ter outro português na Fórmula 1, que acrescentou este ano ao seu palmarés o título de campeão da World Series by Renault e que tem um apelido de pompa (Álvaro Parente).
Mas voltando ao inicio… quem, como eu, chegasse ontem a Jeffreys Bay e não soubesse que este é o palco do, pouco discutível, melhor point-break de direita do mundo, simplesmente seguiria caminho após um breve e ultrajante comentário mais adequado a um qualquer beach-break manhoso deste mundo. Qualquer coisa como: “Mmm… é capaz de dar umas às vezes. Parece rolar uma direita. Bora!”
De facto, o tamanho do mar e o on-shore perfeito fazem com que esta me pareça mais uma das muitas praias por onde passei desde que deixei de Durban, há muitos quilómetros atrás, (por quantos picos de qualidade não terei passado?) e elimina qualquer possibilidade de (bom) surf.
Mas este é o meu principal destino na África do Sul. É o meu “papa de Roma”. Foi por esta onda, mesmo sabendo que era a pior altura para o fazer, que decidi investir o orçamento que ainda tinha em caixa e viajar durante dois dias desde Bangkok para uma terra tão diferente e sobre a qual apenas tinha algumas referências na memória, em vez de continuar a dormir por 6 Euros e a comer pratadas de noodles ao preço um café até ao Natal.
Chego cedo, com tempo suficiente para dar uma volta pela vila e estudar a zona. Duas. Três. Até identificar o sítio exacto de todos os picos da “onda mais famosa do mundo” (Magna Tubes, Boneyards, Supertubes, Salad Bowls, Tubes, The Point, Albatross) e escolher um ponto estratégico para ficar a dormir. Escolho a Beach Music, uma casa com acomodações do tipo backpacker de qualidade, que tem à minha espera um quarto no piso térreo, com casa de banho privada e uma porta de vidro para um relvado que dá acesso directo a Supertubes, o pico principal. Tem também zonas comuns muito agradáveis, como uma sala com grandes vidros no andar de cima, de onde se vai ver a onda toda quando começar a rolar, e uma boa cozinha onde posso preparar as minhas próprias refeições (cof, cof).
- Qual é a tarifa por noite?
- 250 Rand (25 Euros).
- Mmmm… e se eu ficar alguns dias, não me pode baixar um pouco? 200?
- Desculpe, não posso. Estamos em época alta e já estou a fazer um preço especial por ser apenas um pessoa (o eterno problema de viajar sozinho).
- OK, tudo bem. Eu fico.
- Quantas noites?
- Três ou quatro, pelo menos. Depois, tudo depende das ondas!
- Claro! (risos)
Começou o meu “período de espera”.
Jeffreys Bay, na melhor onda do melhor set... nas primeiras duas horas de espera.
Algumas notas para os mais leigos em termos de surf:
point-break: praia ou local onde as ondas normalmente rebentam de forma obliqua em relação à costa, o que origina ondas muito compridas; muitas vezes os fundos são fixos (pedra) ou muito constantes (junto a paredões) o que faz com que, com as condições certas de ondulação e vento, as ondas estejam sempre boas durante muuuuitos anos.
beach-break: praia com fundo de areia, onde tendencialmente as ondas fecham mais ou são mais curtas, por isso não tão boas para o surf.
on-shore: vento que sopra na direcção do mar para a terra; em oposto ao off-shore (da terra para o mar), que é a melhor direcção de vento para o surf.
Dar tempo ao tempo
Depois de três dias debaixo de ventos quase ciclónicos e chuva quanto baste, convenço-me que não vale a pena esperar mais pelos potentes beach-breaks dos piers da Golden Mile. As previsões vão de encontro à minha falta de paciência e este tempo é para ficar, pelo menos, durante uma semana.
Durban é uma cidade que, para além do beachfront, não tem nada de muito interessante e, não param de me avisar, demasiado perigosa depois do anoitecer.
“Quer ir a um Cybercafe? Eu mostro-lhe onde é… mas volte antes do anoitecer e pelo mesmo caminho. Não se engane na direcção, duas ruas para dentro já é perigoso. E leva o seu laptop? Se calhar é melhor usar os computadores de lá, para não correr muitos riscos.”
Parece-me que, como acontece habitualmente, há algum exagero e sobre-protecção do turista mas, de facto, e chamem-me agora racista se for isso que entenderem das minhas palavras, o ambiente produzido pela população local de pretos (digo “preto” com a mesma naturalidade com que digo “branco” e não “caucasiano”) intimida um bocado e, ao escurecer, o centro da cidade fecha e esvazia, tornando-se num local realmente a evitar.
De qualquer forma, não me resta mais nada para fazer na cidade. Na verdade, com esta conjugação de factores, temo que dificilmente conseguirei encontrar ondas surfáveis até chegar à província de Easter Cape, onde a costa muda ligeiramente de direcção e é mais recortada, formando praias mais do tipo baía (mais protegidas do vento e com fundos mais constantes) do que propriamente uma linha de areal contínuo como em Kuazulu-Natal.
Até Port Elizabeth são muitos quilómetros e, além de tentar aproveitar ao máximo o visual das estradas costeiras, tenho mesmo que dormir algures pelo caminho, independentemente de haver surf ou não. Por isso, deixo Durban munido de um mapa de estradas, algumas dicas do João Rebelo, um amigo que já viveu e trabalhou na África do Sul, e demasiados folhetos retirados do Posto de Turismo com o simples objectivo de “ir indo”.
Vou batendo algumas praias apenas para confirmar, vez após vez, as péssimas condições que os Deuses Éolo e Neptuno reservaram para mim e acabo por parar antes de anoitecer em Margate, uma vila que me pareceu ter alguma movida. No dia seguinte, encontro uma boa praia onde consigo surfar pela primeira vez numa direita cheiosa que deixava muito a desejar. Passo o resto da tarde à procura de outras ondas e acabo o dia a surfar uns quebra-cocos miseráveis na praia em frente ao meu hotel.
- São sete horas de viagem até East London. A estrada deixa a costa e tens que ir pelo meio da montanha. Vais entrar num buraco negro, tens que sair cedo e fazer tudo seguidinho para chegares ainda de dia – avisa-me um senhor com quem converso durante o jantar.
Não percebi se havia alguma conotação racial nas suas palavras, mas a verdade é que durante todo o caminho passei por imensas aldeias montadas sobre os montes e pequenas cidades onde não vi um único branco.
Decido fazer uma única paragem em Mthatha, uma cidade que viu Mandela crescer, para, da mesma assentada, meter gasolina, comer e ir à casa de banho. Tento ser cuidadoso com o sítio que escolho para parar o carro em segurança, uma vez que, para além de tudo o resto, transporto as pranchas que, inevitavelmente, têm que ficar à mostra. Consigo parar o carro em frente ao um movimentado KFC (não era o que me apetecia comer) para assim não perde-lo de vista enquanto vou comprar alguma coisa. Em todo o caso, levo comigo “a” mochila, que tem o computador, documentos, cartões bancários, etc. mas da fila para a caixa até consigo ver a traseira do carro.
Eu fui cuidadoso, diabos! Mas, ainda assim, quando me preparava para pedir o meu almoço, uma senhora entrou na loja a avisar que estavam a assaltar um carro. “É o meu, claro!”. Nos três segundos que demoro a sair consigo imaginar cinco ou seis gajos a descarregar as pranchas para um camião, já com o carro sem pneus e pronto para ser incendiado! Mas não… apenas vejo algumas pessoas a correr e mal chego ao carro percebo, de imediato e com a serenidade possível, o resultado do assalto. As pranchas estavam lá, “a” mochila estava nas minhas costas e a mala não tinha sido aberta. Levaram-me “apenas” uma máquina fotográfica e um par de óculos que estavam no porta-luvas.
“Vai atrás dele, ainda o consegues apanhar!”. “Fecha mas é o carro antes que te roubem o resto!”. “Fecha o carro e vai, ele largou as coisas!“. “Espera pela polícia!”. “Mata!”. “Esfola!” – nem sei como conseguir manter alguma calma no meio daquela confusão.
Fecho o carro, peço a um senhor que se mostrava indignadíssimo para ficar a tomar conta e corro na direcção que me apontam… para encontrar as minhas coisas uns metros à frente, delicadamente pousadas numas escadas que dão acesso a um jardim.
Apesar da minha vontade ser sair dali o mais depressa possível, espero pela polícia, conforme me implora a maioria das pessoas, que apareceu já com o assaltante algemado e deitado na parte traseira da carrinha de caixa aberta. Sigo-os até à esquadra para formalizar a queixa e abrir o processo, enquanto o suspeito capturado se queixa e suplica por alguma coisa de beber com um, em certa medida comovente, olhar de impotência e sujeição.
Sigo viagem para East London, onde chego já de noite, com a fechadura da porta do passageiro estragada e mais uma história para contar e alojo-me num bom hotel, com parqueamento fechado e dois seguranças nocturnos armados com espingardas.
Zulu time
Há muitos outros sítios onde quero ir e outros tantos que quero repetir mas, de todos esses alfinetes que marcam a viagem originalmente idealizada, há um único que não ainda posso pôr a verde, que marca uma pequena vila na África do Sul.
Quando comprei o bilhete RTW, tive que deixar o continente Africano de fora. Por um lado, por razões de tempo e eficiência de itinerário mas, principalmente, por razões orçamentais, uma vez que isso implicaria um aumento muito significativo no preço total das passagens.
Ligo a Internet e abro seis sites ao mesmo tempo. Dois de bancos e quatro de companhias aéreas. Revejo ao pormenor as minhas contas bancárias e faço cálculos detalhados aos saldos, ao comprometido nos cartões de crédito e ao que ainda vou gastar nos próximos dias na Tailândia. Tenho poupado e, com excepção da Costa Rica (por causa do assalto) e da Austrália, tenho estado sempre abaixo dos 50 Euros diários orçamentados. O valor pago pelo seguro e as contribuições dos leitores e amigos também foram fundamentais para garantir que não entrar em bancarrota (“bankrupt”, com dizia na Indonésia para não pagar parque ou para ter uma desculpa para não comprar t-shirts às velhotas de Uluwatu). Dá, tem que dar! Pode ser à justa, mas vai dar.
Confirmo, em tempo real, os horários e os valores das tarifas para tentar escolher a melhor opção mas, com apenas três semanas de antecedência e com data de regresso em cima do Natal, já há muito poucas alternativas viáveis. Na Singapore Airlines, a minha primeira escolha, já só há lugares de primeira classe. Na Emirates, via Dubai, a mesma coisa. Na prática, restam-me duas opções para voar de Banguecoque para Joanesburgo: com a Ethiad (quem??), via Abu Dabi (onde??) ou, não deitando fora o segmento já incluído e pago na bilhete RTW da Qantas, voar para Londres e daí apanhar um voo com a South African Airways. A segunda opção fica 200 Euros mais barata e, apesar de ser muito mais longe e ineficiente, coloca-me em Joanesburgo no mesmo dia, praticamente à mesma hora. Ora, está decidido então. Prefiro aguentar no corpo esses 200 Euros e guardá-los para outra coisa qualquer.
Esta é a pior época de surf na África do Sul, particularmente em Jefrreys Bay, a tal vilazinha marcada no meu mapa. Para lá chegar, tenho que dar meia volta ao mundo para um lado e mais meia para baixo, passando duas noites num avião e um dia inteiro no frio de Londres. O meu orçamento está no limite, pelo que surpresas desagradáveis terão que ser cobertas pela minha conta de poupança, que prometi a mim mesmo não mexer. O meu joelho esquerdo, que cedeu sem justificação aparente durante uma noite mal dormida no aeroporto de Singapura, continua a estalar e a doer quando é solicitado.
Mas esta alteração de rota acrescenta o continente que faltava a esta volta ao mundo, tornando-a mais rica e dando-me oportunidade de conhecer mais um novo universo tão diferente do habitual, que para primeira impressão, num fim de tarde chuvoso e escuro no centro de Durban, já me está a dar suores frios!
Pouca coisa é capaz de parar um sonho.
Sorrisos de graça
Enquanto passavam imagens a condizer, ouvia-se: “Aqui, a comida é mais barata. Aqui, a roupa de marca é mais barata. Aqui, os bilhetes de avião são muito mais baratos. Aqui, a tecnologia é muitíssimo mais barata”. E terminava com um senhor de barbas, que parece que é famoso, a dizer: “E os sorrisos, esses são de graça!”
Gosto de anúncios e de os avaliar sempre com uma perspectiva crítica tendo em vista o seu objectivo e, ao contrário das vozes da “opinião pública”, não achei disparatada a campanha AllGarve. Já este anúncio do Panamá, acho um bocadinho enganador porque, na verdade, os preços não são assim tão mais baixos do que nos países vizinhos. Em algumas coisas, como os bilhetes de avião, são bem mais caros, neste caso devido ao quase monopólio da Copa Airlines. E, quanto aos sorrisos… bem, digamos que, taco a taco com Mexicanos, Peruanos ou Salvadorenhos, os Panamenhos não são propriamente o melhor exemplo de povo sorridente.
Ora, tivesse sido feito pelo governo da Tailândia, com uma rapariga morena de olhos rasgados em vez do tal senhor de barbas, este anúncio era perfeito! Principalmente no que respeita aos sorrisos. De facto, o sorriso é praticamente uma instituição neste país.
Ao contrário dos seus vizinhos Vietnam e Cambodja, o povo tailandês não tem um passado recente de guerras e opressões. Na rua, não é comum ver pessoas com a cara deformada pelo efeito do Agent Orange despejado pelos Estados Unidos durante a guerra, nem sobreviventes amputados do movimento genocída de Pol Pot. Talvez por isso, a Tailândia seja um país mais feliz.
Desfazendo algum preconceito pouco racional, tenho-me surpreendido bastante com os muçulmanos. Ou, para ser mais sincero e exacto, com as muçulmanas. Debaixo do lenço, véu e das roupas maioritariamente escuras que as tapam por completo debaixo dos 30 graus que se fazem sentir, tenho encontrado pessoas com uma tranquilidade alegre invejável e com um sentido de humor com o qual me identifico plenamente.
- Gosto quando sorris – diz uma das anfitriãs nos bungalows de Koh Lanta.
É que eu sou mais do tipo Panamenho… e bem tenho tentado zangar-me com a senhora da agência de viagens que impingiu um hotel, com o funcionário da estação que se enganou a indicar o comboio correcto ou com o motorista do tuk-tuk que tenta sacar o seu.
Mas lá vem o sorrisinho acompanhado de uma expressão qualquer engraçada a prolongar a última sílaba e, pronto, fica sempre tudo bem!
Aqui, os sorrisos são mesmo de graça. E isso faz toda a diferença.
Nota 1: Algumas expressões engraçadas
Bike, bike, motorbike
Boat, boat, taxi boat
Same same… but different
Massage todaaayy?
Ok boss?
Cheap price, very cheap
Nota 2: Itinerário
O meu itinerário sofreu uma alteração radical. Os menos distraídos terão reparado que adiantei e apressei o Vietnam e o Cambodja e que, a mais de 20 dias da data de regresso, estou na minha última paragem. Quando a maioria dos leitores ler este post, já estarei a dar meia volta ao mundo de avião. Para, logo de seguida e com apenas uma paragem de algumas horas perto de Portugal, dar outra meia e terminar esta viagem em grande! Vemo-nos novamente do outro lado.
OK boss?
:) (sorriso)
Sim, Sr. Ministro
Gostava de ficar dois dias em Phnom Penh mas o meu calendário está demasiado apertado. Decido, por isso, deixar-me ficar na guest-house em que o minibus que fez o último troço da viagem desde Saigão nos deixou (mais um esquema) e comprar logo um bilhete no primeiro autocarro da manhã para Siem Reap.
Fico contente quando chego ao escritório/terminal da companhia e vejo que é um autocarro comum, onde viajam maioritariamente pessoas locais, em vez de um transporte específico para turistas. No andar de baixo, onde normalmente também há assentos, vai a bagagem toda, incluindo instrumentos agrícolas, sacos de farinha e arroz e… duas motas! Os passageiros sobem ao segundo piso e uma “hospedeira” ajuda-os a encontrar o lugar marcado.
No lugar ao lado do meu, já está sentado um homem pouco mais velho que eu, bem vestido, de calças de fato e camisa clara lavada e passada, e uma pasta de documentos estilo profissional. Negócios em Siem Reap? – pergunto-me.
Cumprimento-o, sento-me e em poucos minutos começa a conversa. O meu companheiro de viagem passou os últimos anos fora do país, maioritariamente na Rússia, onde tirou uma licenciatura e um mestrado em Economia e mostra-se profundamente desiludido com o estado em que se encontra o Cambodja. A generalizada circulação do Dólar em vez do Rial, as condições humanas de higiene e saúde, o estado das estradas, a qualidade dos meios de transporte, etc… tudo aquilo que um bom político prometeria resolver num comício de campanha eleitoral.
- No teu país as mulheres são liberais?
- Como assim liberais?
- Quando te aproximas delas, elas falam contigo? Aqui não. Se quiseres conhecer alguma mulher tens que primeiro conhecer a família.
- É mesmo? Então, se eu meter conversa com uma, ela vira-me as costas? Amanhã vou experimentar!
- A ti não sei, talvez não. Como és turista, ela acha que não queres nada de mal. Mas se for eu, não fala comigo. Na Rússia é mais fácil. Lá, as mulheres bebem muita vodka. E assim, fica tudo mais fácil.
Rimo-nos sem demasiada maldade. Homens são homens em qualquer parte do mundo e, quando falha outro tema qualquer, futebol ou mulheres garantem sempre uma boa conversa.
Tenho curiosidade em saber que tipo de trabalho ele pretende e pode fazer agora que está de regresso. Diz-me que tem tido várias propostas de amigos para trabalhar como consultor e economista mas que prefere o que está a fazer agora e que são projectos que não quer abandonar. Conversamos principalmente sobre economia pública e politica internacional e fico ingenuamente surpreendido com o seu nível de conhecimento, claramente muito superior ao meu.
- Tenho um cargo recente no Ministério do Interior e quero seguir esta carreira, quero trabalhar na estruturação do país. Não vou mais para fora, quero aplicar aqui tudo o que aprendi.
- Quem sabe daqui uns anos não vejo nas notícias “novo chefe de governo do Cambodja” e posso dizer: “Eu conheço este gajo! Viajei com ele num autocarro para Siem Reap.”
- Quem sabe – responde-me com um sorriso modesto mas com uma forte determinação no olhar.
Pergunto-lhe se, em termos pessoais, estão a ser difíceis estes primeiros meses de volta a Phnom Penh. Se tem cá família e uma casa para o receber.
- Sim, tenho dois irmãos que vivem na cidade.
- E os teus pais? Vivem numa aldeia?
- Não tenho pais – respondeu-me com um ar mais pesado, desviando o olhar para a janela.
Ao atravessar aquelas estradas e aqueles “campos de morte” (literalmente killing fields), onde quase dois milhões de pessoas foram assassinadas, à porta fechada, sob a bandeira dos ideais de um fanático que sonhava construir “uma sociedade agrícola sem comércio, sem ciência, sem escolas, sem cultura, sem cidades, sem bens pessoais e até quase sem vida privada”, tive a percepção clara que o Chandara era um dos milhares de órfãos do Khmer Vermelho. Viria daí a sua genuína vontade de trabalhar “para o país”?
Á chegada a Siem Reap e por gentileza da guest-house de Phnom Penh, tenho à minha espera um tuk-tuk que tento, sem muito sucesso, evitar a todo o custo. Á espera do meu companheiro está uma mulher bonita, de trajes muçulmanos, que ele me apresenta como namorada.
- Vem connosco. Cabemos os três na mota, não há problema.
Mas, com a bagagem, era quase impraticável e não quis sujeita-los a esse esforço.
- Anota o meu número de telemóvel então. Quando estiveres alojado, liga-me para nos encontrarmos no centro ou visitarmos juntos os templos de Angkor.
Passo-lhe o meu caderno de notas para a mão enquanto discuto com o motorista do tuk-tuk que quer levar-me para ver uma guest-house que eu já percebi ser mal localizada, e peço-lhe para escrever.
- OK, combinado. Depois eu ligo.
Nunca cheguei a ligar. Por comodismo, porque me apetecia estar sozinho, para não gastar dinheiro… e por mais mil e uma razões que posso agora inventar. Não liguei, pronto. E visitei os templos sozinho, aborrecido e irritado com a máquina fotográfica nova que, vejam bem o meu azar, já está avariada.
Alguns dias mais tarde, já na Tailândia, vejo de relance uma notícia que passa na televisão do hotel e quase posso jurar que, em segunda linha, logo atrás de alguns senhores com ar importante, vejo o Chandara no meio do que me parece ser um evento ou uma conferência de imprensa.
- Ei, eu conheço aquele gajo! Viajei com ele num autocarro para Siem Reap.
Na rota do turismo
É certo que, durante todo o percurso desde a Cidade do México, passei por vários lugares do chamado “turismo de massas” mas sempre encarei esses momentos como visitas de “picar o ponto”. Não que não as quisesse fazer mas, na realidade, nunca foram os pontos altos do meu roteiro de viagem pessoal.
Tulum ficava no caminho, em Tikal passava-se perto, o vulcão Arenal é imperdível (mesmo sendo um cromo repetido) e para ir a Atacama era só um pequeno desvio (12 horas de autocarro!). E assim por diante… juntando sempre “o útil ao agradável” e visitando marcos históricos e turísticos no caminho das praias e das ondas.
- Buenas olas hoy? – brincava comigo um local de San Pedro ao ver-me desembarcar do autocarro com duas pranchas ao ombro, numa cidade no meio do deserto e a 2.400 metros acima do nível do mar.
Esta sensação de estar só de passagem, a caminho de um destino menos convencional, dava-me alguma autonomia emocional para não embarcar em tudo o que me aparecia à frente (hotel booking, tours, happy-hours, massage, truc-truc, all you can eat… you name it!) na ânsia de aproveitar ao máximo a estadia. Era como se ali não tivesse qualquer obrigação de nadar naquela praia, de subir aquele monte, de fotografar aquela paisagem, nada! Na realidade, aqueles eram os meus pontos de descanso, os momentos para organizar fotos, actualizar o blog, escrever os postais e aproveitar um bocadinho de mais civilização. Se fosse a Roma e não visse o papa, não vinha daí grande mal. E, reconheço, fazia-me sentir um pouco à parte e diferente da maioria dos viajantes e turistas que ia encontrando.
Mas agora, quando me falha esse objectivo mais concreto e me vejo prisioneiro de agentes e operadores de turismo, começo a sentir o quão vazio e irritante pode ser viajar quando nos limitamos a seguir a corrente e os passos que outros desenharam para nós, como se fossemos cordeirinhos mansos em direcção ao matadouro.
No Vietnam e no Cambodja, não consigo fazer quase nada sem a ajuda de uma das centenas de agências de viagens que abundam em todos os locais de “passagem obrigatória”. Não encontro transporte público para subir o rio Mekong e tenho que ir numa viagem organizada (que até acabou por ser razoavelmente off-road); em Siem Reap, não alugam motas ou carros a estrangeiros, obrigando a visitar os templos de Angkor num tour ou de forma independente mas alugando um tuk-tuk com motorista/guia (alugar uma bicicleta e pedalar mais de 30 kms debaixo de um sol abrasador não me pareceu uma opção na altura); as empresas de autocarros não se vêem e é difícil conseguir que nos vendam um bilhete directamente, sem ser por intermédio de uma agência; há grandes esquemas montados de forma a fazer demorar as viagens até à exaustão para, finalmente, deixarem os passageiros mesmo à porta de uma guest-house onde os espera um sorriso e a promessa de um bom banho e uma cama confortável.
- Ouvi dizer que o caminho é perigoso porque se atravessa muitas aldeias para onde mandaram os antigos assassinos em massa – diz-me o Jean, um preocupado Suíço companheiro da viagem entre o Vietnam e o Cambodja.
Está a referir-se à estrada entre Siem Riep (Cambodja) e a fronteira com a Tailândia e às atrocidades cometidas pelo movimento Khmer Vermelho há mais de trinta anos, na altura ofuscadas pela cobertura mediática da campanha dos EUA na guerra do Vietnam.
Olho para ele com um ar paternalista.
- Mas achas que alguém te quer matar!? Coitados dos homens… só devem é querer viver na paz possível os anos que lhes restam. E se fosse assim tão perigosa não havia linhas de autocarros turísticos a fazer esse percurso.
Mais tarde, também ficará intrigado por eu e um Inglês, com quem dividi o quarto em Chau Doc, estarmos a tomar comprimidos contra a malária.
- Mas é assim tão perigoso? Nós trouxemos, mas só tomamos se ficarmos com febre.
- Boa! Eu também só ponho protector solar se apanhar um escaldão!
Desatámos todos a rir e acabámos a noite a beber umas cervejas e a contar histórias num bar com alto ambiente e boa música.
Consigo sair de Siem Riep de táxi partilhado até à fronteira, para tentar evitar os esquemas dos agentes de viagem, e daí apanhar um autocarro semi-público até Bangkok. Na verdade, nem percebi muito bem… só sei que paguei mais do dobro que os passageiros locais e tive que fazê-lo através do raio de um agente porque o condutor não me deixava entrar de outra forma!
Não me atraso ao encontro combinado em Singapura e, depois de dar um desfalque no orçamento (comprei um novo iPod para substituir o roubado na Costa Rica) e de uma voltinha pela Malásia (que recomendo sem reservas), regresso à Tailândia e ao expoente máximo do turismo: ilhas Phi Phi!
Cometo o erro de reservar um quarto através de uma agência de viagens, acreditando nos comentários de guias de viagens famosos. Azar! Não só fico sem o dinheiro do depósito como acabo por ter que me hospedar num hotel quatro vezes mais caro. Felizmente, é o único (excluindo os isolados resorts de luxo) onde é possível ter um momento de sossego para escrever aos meus leitores, longe das hordas de turistas que desembarcam no porto todos os dias, da música electrónica do bares de praia, do barulho das obras de reconstrução e do lixo que, dificilmente me convencerão do contrário, já não são restos nem efeito do tsunami. Este pedaço de ilha, mesmo depois da desgraça, está a rebentar pelas costuras e acaba por perder o seu encanto no meio da barafunda.
Ou então, sou só eu que já não estou habituado a estas andanças. Mas houvesse ali uma esquerda a quebrar perfeita na ponta do morro que a história já era outra. ;)
O caminho dos heróis
Quando entrei no comboio em Hanoi, a minha intenção era viajar até Da Nang. Não sabia exactamente o que ia encontrar mas uma página digitalizada do Stormrider Guide e os relatos de soldados americanos sobre ondas e sessões de surf feitas aí e em Nha Trang durante a guerra foram suficientes para escolher aquele ponto de paragem a meio do caminho para Saigão. Agora viajo sem as pranchas, que deixei num hotel em Bangkok, e não estou à procura de ondas mas, ainda assim, pareceu-me uma pitstop mais natural para mim do que qualquer uma das outras cidades ou pontos de atracção que vêm descritos nos tais guias.
No meu compartimento de quatro camas, viaja uma rapariga Vietnamita que fala razoavelmente bem espanhol, fruto de um ano de trabalho em Barcelona, e que me ajuda a comunicar com a responsável de carruagem para saber como posso continuar a viagem até Saigão, apesar de apenas ter comprado bilhete até Da Nang. É que fiz umas contas rápidas e cheguei à conclusão que tenho que me mexer depressinha para conseguir fazer o percurso que quero sem arriscar perder o voo Bangkok-Singapura, no dia 2 de Novembro. A resposta é simples e imediata. Pago-lhe directamente a ela o valor do bilhete em falta e a coisa fica controlada.
- No problem? – tento certificar-me que a senhora sabe o que está a fazer e que não vamos os dois parar a uma prisão e passar os próximos 20 anos a comer arroz com arroz.
Sorri e faz-me sinal para a acompanhar. Mostra-me o seu compartimento individual e, através de gestos, faz-me perceber que, em último caso e se o comboio encher, posso ficar a dormir ali. Agradeço e sinto alguma confiança na senhora que, afinal de contas, tem aposentos privados. Deve ser importante. “Sim, devo estar em boas mãos”.
No terceiro compartimento para onde me mudo (porque entretanto chegava gente com bilhete para a cama onde eu ia à socapa), viajam três senhoras. Mãe, filha e prima. Uma delas fala um pouco de inglês e lá nos conseguimos entender. Desenho-lhes um planisfério para tentar explicar onde fica Portugal e, depois de muitas perguntas sobre a minha família, resolvo abrir o computador e mostrar-lhes algumas fotografias relativamente recentes. Adoram e, entretanto, a velhota pede repetidamente à sobrinha para me dizer que está muito feliz de eu estar ali com elas e que eu sou “very handsome”.
À chegada a Saigão, a chefe de carruagem faz-me novamente sinal e acompanha-me à porta de saída, onde estão os fiscais a controlar os bilhetes. Arregalo-lhe os olhos como quem diz “ai caraças!” mas ela faz-me sinal para avançar e, pelo que consigo entender, que já falou com eles.
São 4:30 da manhã e, para além de um papel com o nome de uma rua onde, supostamente, haverá vários hotéis, não tenho noção nenhuma de onde estou nem para onde quero ir. Mostro o papel a um motorbiker: “Phan Ngu Lao”. Acordamos o preço e… seja o que o Buda quiser!
A meio da noite, no banco de trás de uma mota pelas ruas de Saigão, com uma mochila às costas e uma mala pequena ao colo do condutor, em direcção a um destino incerto.
Será que esta versão vem nos guias?
Nota: O “caminho dos heróis” era o nome que o meu tio Júlio utilizava para descrever o corta-mato que fazíamos até ao rio numa quinta perto do Marco de Canavezes. Em vez de seguirmos pelo trilho normal e bem definido, íamos a correr e descer ravinas pelo meio de pedras e silvas, sempre a improvisar uma rota diferente. Ir ao rio pelo caminho dos heróis era o ponto alto do fim-de-semana.
Saudade
Às vezes, particularmente quando estou em sítios que não conheço bem, assusto-me até com o strep que se enrola no pé ou com pequenas algas que se colam ao corpo. Outras vezes, quando vejo um set grande a entrar desde lá de fora, imagino que pode ser um tsunami. Não é uma hipótese disparatada estando aqui na Indonésia. Enfim… como não tenho mais nada com que me preocupar, arranjo estas palermices.
Já sentado na prancha, meto a cabeça dentro de água e abro os olhos para tentar ver alguma coisa. Nada, “tubarão não deve ser”.
Nessa manhã, tinha sido picado por uma alforreca. Um espanhol, que acabara de conhecer, viu-me com o pé fora de água.
- Que paso? Reef?
- Não. Acho que alguma coisa me mordeu. Sinto a picar muito.
- Medusa (ler com sotaque castelhano)! Jellyfish, you now?
- Pois, se calhar foi. E isto passa rápido?
- Si, un o dos dias. Bueno, depende da la medusa!
E continua e remar, a rir-se, em direcção ao outside.
E agora isto, seja lá o que for. Mas, volta e meia, lá sinto a bater por baixo da prancha “toc, toc”. De repente dá-me o click. Viro a prancha ao contrário e (agora parece-me óbvio) tenho uma das quilhas solta, quase a sair.
É o meu último dia em G-land. É a última surfada do dia e, quase de certeza, a última surfada na Indonésia, que será também a última antes do jejum de trinta e muitos que se aproxima, enquanto viajo pelo sudoeste asiático. Apesar do cansaço, estava com vontade de aproveitar a luz do dia até à última e, na verdade, a quilha solta não atrapalha assim tanto. O pior é mesmo perdê-la, se continuar a surfar e acabar por se soltar.
Mas depois vem-me mais uma ideia daquelas estranhas à cabeça. E se isto tudo é um sinal? No total, já levo 7 dias de G-land. Isso é qualquer coisa como 10 ou 12 surfadas. Mais ou menos 50 ou 60 ondas boas. E se “alguém” me está a querer dizer que já tenho a minha conta, que, a partir de agora, só vai piorar? Primeiro a medusa. Agora a quilha a soltar-se. Isso são avisos? O que é que se segue? Um espalho no reef?
Olho à minha volta. De um lado, vejo os brasileiros que chegaram ontem, e com quem tive a primeira discussão dentro de água em 6 meses de viagem, a disputar o pico como se fosse o último prato de comida que os seus pobres espíritos têm para se alimentar nos próximos dias. Do outro, vejo a selva cerrada, onde apenas se destaca a torre de observação.
Sim, já tive a minha conta. Despeço-me do Bob, um Havaiano que está alojado noutro surf-camp mas que surfa muitas vezes na mesma secção que eu e, por isso, acabamos por puxar sempre um pelo outro. Apanho uma última onda para sair e fico a ver os outros até o sol se pôr.
Este pode não ser o mais bem arranjado dos três campos que existem (é o mais barato), mas dizem que a comida é a melhor e, tenho a certeza, não fica atrás dos outros em termos de pessoas. Ao fim do primeiro dia, todo o staff sabe o nome dos 20-30 hóspedes, um por um, e atendem-nos com uma simpatia e um carinho que nos fazem sentir entre família.
No dia seguinte, antes de entrar para a carrinha que faz a penosa viagem de regresso a Bali, um dos empregados põe-me a mão no ombro, como quem dá um abraço de despedida, e pergunta-me com uma cara triste e num português quase perfeito.
- André… saudade?
100 metros barreiras
É verdade, nunca o discuti, esse é um dos meus principais pontos fracos a nível profissional. Curiosamente, nenhuma das pessoas que me identificou esse ponto foi capaz de me sugerir acções concretas válidas para o melhorar. Acho que é normal na maioria das empresas. Está toda a gente demasiado focada na gestão do negócio e acaba por se deixar o desenvolvimento diário dos próprios recursos para segundo plano. Depois manda-se a malta fazer formações pagas a peso de ouro, como que para tentar compensar. Na teoria, parece um contra-senso. Mas, na prática, acontece… e eu percebo porquê. É um equilíbrio difícil ou, como diria um guru meu amigo só para me gozar, “será mesmo um dos maiores paradigmas da gestão moderna”.
Há muito tempo que o objectivo principal desta viagem é, precisamente, chegar ao fim. Dentro do prazo e do orçamento e, se possível, sem grandes mazelas físicas ou psicológicas!
Depois de várias tentativas para tratar das coisas à distância, não me resta outra opção. Tenho que ir a território português tirar um novo passaporte.
- Bastam 15 minutos para fazer o procedimento na máquina (foto, impressão digital e assinatura) e pode voltar para Bali no mesmo dia. Em 5 dias úteis recebo o passaporte de Lisboa e dia 15 ou 16 estou a enviar-lho para a morada que me indicar – diz-me, pelo telefone, a pessoa responsável pelos serviços consulares na Embaixada de Portugal em Jakarta.
“15 ou 16?” - penso. “Mmmm… eu parto a 20. Se há algum contratempo ou atraso em Lisboa ou algum extravio no correio, está o caldo entornado outra vez”.
Mas, neste momento, é a única hipótese que tenho. Quando tomo esta decisão forçada, estou em G-land, num surf-camp no meio da selva, na mesma ilha que Jakarta mas no extremo oposto. Depois de discutir o assunto e aconselhar-me com o gerente do campo, chego à conclusão que será melhor voltar a Bali e daí apanhar um voo de ida e volta para Jakarta.
Há um detalhe importante no meio disto tudo. Estamos no mês do Ramadão, em vésperas da noite mais importante, e há muita gente a viajar para passar este período nas suas aldeias e junto dos seus familiares. Isto faz com que as tarifas dos voos estejam inflacionados, a custar três vezes mais do que o normal. Mas a viagem overland, como tinha pensado fazer inicialmente, iria, na melhor das hipóteses, demorar 24 horas, em autocarros e comboios de segunda ou terceira categoria, cheios de muçulmanos (não tenho nada contra ou a favor de qualquer religião mas, temos que admitir, os muçulmanos são um bocado barulhentos e javardolas). Isto se conseguisse, sequer, arranjar bilhetes no próprio dia.
Pelo telefone, ele consegue-me arranjar um voo one-way, ainda com uma tarifa aceitável. Quanto ao regresso, depois tinha que me safar sozinho. Pergunta-me se quero reservar.
- Em que companhia? – pergunto.
A resposta que obtenho é uma careta como quem diz: “Não faço ideia, mas isso é relevante?”. Pois… para mim é um bocadinho. Agradeço mas digo-lhe para não reservar, que quando chegar a Bali trato das coisas sozinho.
Mal chego, agarro-me aos sites das companhias aéreas e consigo arranjar um voo para o dia seguinte com a AirAsia, uma nova companhia Low Cost sedeada na Malásia. Já a tinha explorado um pouco, para ver voos no eixo Singapura-Tailândia-Cambodja-Vietnam e, ao contrário das companhias indonésias, inspira-me alguma confiança. Por incompatibilidade de horários, não dá para ir e voltar no mesmo dia mas do mal, o menos. Marco também pela net um quarto no hotel Ibis, que está com uma boa promoção de Ramadão e é bastante próximo da Embaixada. Siga!
Chego ao aeroporto de Jakarta e encontro facilmente um transporte barato para o centro. Na verdade, já tinha visto no site do aeroporto os transportes que existiam e como os apanhar. Tem-se revelado uma boa prática procurar esta informação nos sites dos aeroportos para evitar os, sempre mais caros, táxis.
No dia seguinte, conforme programado, estou tocar à campainha da Embaixada às 9:30 da manhã. Pelas minhas piores estimativas, estaria dali para fora antes das 11:00, o que ainda me daria tempo para visitar um ou outro monumento antes do voo de regresso, às 16:10.
Não podia estar mais enganado. Como já vos disse mais do que uma vez, a Lei de Murphy está sempre à espreita e, porque devo ter feito muito mal a alguém numa outra vida, apanha-me sempre.
A máquina dos novos passaportes electrónicos não está a funcionar. Desde a tarde anterior que há um problema de comunicações e não está a ser possível ligar com Portugal. Como me parece óbvio, por razões de segurança, o software não permite guardar a informação em offline para enviar mais tarde, por isso tudo tem que ser feito online. Ora, sem comunicações não há passaporte.
Ainda assim, fazemos uma tentativa quando o funcionário consegue, finalmente, fazer o login na máquina. Não resulta. As comunicações estão lentas demais e a informação não passa. Por minha insistência, fazemos uma segunda tentativa uma hora depois. Nada.
Entretanto, a responsável consular e única pessoa eventualmente capaz de resolver o assunto por outra via, está “presa” numa reunião com o Embaixador, que só termina pelas 13:30 depois de mais uma insistência minha, desta vez de “falar imediatamente com alguém que possa resolver o meu problema”.
Pensamos juntos em alternativas. Um passaporte temporário que me permita chegar a Bangkok a aí tirar um definitivo na nossa Embaixada; dois passaportes temporários com diferente datas de emissão e validade, que me permitam seguir viagem até Portugal; três, quatro? Nada disso resolve e eu não quero adiar o problema. Quero resolvê-lo já. A alternativa que tenho na manga, a única possível de imediato, não é, por assim dizer, muito legal.
- Se me passar um passaporte temporário com 8 meses de validade, em vez dos 6 que dita a lei… isso resolvia-me o problema. É um erro normal, uma pessoa enganar-se a contar os meses. Olhe, o primeiro passaporte que me enviaram da Colômbia para San Jose vinha com a data errada. E tenho a certeza que não vou ter problemas, passo com ele em qualquer fronteira.
Se estivesse a falar com um oficial Indonésio, ao mesmo tempo que dizia estas palavras estaria a dar-lhe um aperto de mão com algumas notas de agradecimento. Mas não. A minha interlocutora tem, naturalmente, a sua dignidade profissional e, por muito que me queira ajudar, não pode aceitar a minha sugestão nem fechar os olhos a um eventual erro grosseiro desses. Compreendo e sinto até um certo orgulho nacional.
São 14:20 e não tenho passaporte. Dou o voo de regresso como perdido (não há reembolso nem alterações na maioria nas Low Cost) e decidimos esperar pelo dia seguinte, para ver se a maquineta funciona ou se Lisboa dá outra solução.
- Peço-lhe imensa desculpa mas agora não consigo mesmo fazer mais nada. Só a partir das 15:00 (9:00 em Lisboa) é que se começa a conseguir falar com alguém.
- Peça-lhes a excepção para os 8 meses. Sem máquina a funcionar, tem que se arranjar outra solução. Mas pinte a coisa mais negra do que ela já é. Diga que eu tenho problemas psiquiátricos e que se não vou embora depressa “passo-me dos carretos”!
Vendo bem as coisas, não seria uma mentira assim tão grande.
Volto para o hotel a pensar no pior cenário. Costumo fazer isso em situações de “crise”. Dizem-me que é por ser muito pessimista mas eu prefiro ver os extremos e perceber se consigo viver como isso e, a partir daí, construir cada passo da estratégia de resolução do problema. O pior cenário é ter que ficar em Jakarta até as comunicações funcionarem ou até Lisboa dar outra solução. Um sexto sentido disse-me para vir preparado para o pior e trouxe comigo “a” mochila, isto é, tudo o que é indispensável e não abandonável. Em caso de emergência, posso ser deportado para Portugal sem perder coisas de muito valor além das pranchas de surf que, obviamente, deixei em Bali. Decido que só saio de Jakarta com um passaporte na mão ou num Hércules C-130 com ordem de prisão em Portugal! “Mas hoje é dia 9… até dia 20 fica resolvido de certeza”. E a partir deste pensamento começo a magicar os próximos passos.
Às 16:30 recebo uma mensagem no telemóvel. “Pode vir agora à Embaixada?”. “Estou aí em 15 minutos”, respondo.
Aparentemente, o Gabinete do Ministério deu autorização para o passaporte temporário de 8 meses e, passados 20 minutos, saio com um documento que me vai permitir, se não houver mais contratempos (o que eu duvido), seguir viagem pela Ásia e regressar a Portugal alguns dias antes do Natal.
Agarro-me outra vez aos sites das companhias aéreas mas está tudo esgotadíssimo nos próximos três dias. O único voo de regresso que arranjo, pela mesma tarifa que paguei pela ida e volta na AirAsia, é da local Mandala Airlines, a companhia de se despenhou em 2005, duas semanas antes da minha vinda para Bali. Qual a probabilidade da mesma companhia se despenhar duas vezes no espaço de dois anos? Provavelmente menor do que outra companhia qualquer se despenhar, não? Mas o medo não quer saber de lógicas e não liga a probabilidades… e até ao último minuto, dentro do autocarro que passa pelo escritório da Mandala (onde tinha que ir pagar o bilhete pré-reservado por telefone) e termina na estação de comboios, hesito em apanhar esse voo ou tentar uma viagem de regresso por terra.
O que interessa é que já estou em Bali novamente e já tenho o bendito passaporte. É uma obra-prima muito parecida com a anterior, mas o importante é que serve o propósito e, já agora, também fica para a colecção!
Os próximos dias serão passados a planear e a organizar o circuito pelo resto da Ásia e, quem sabe, com uma nova ida a G-land, uma vez que Bali está quase sem ondas.
Com tanta burocracia, papelada, documentos, mapas, calendários, bilhetes, vistos, sites de companhias aéreas, de emigração e turismo, marca, desmarca, envia, não envia, liga, não liga, etc.… até já estou com os olhos em bico! ;)
Mas acho que os meus chefes iam ficar orgulhosos.
Nota: Para que não haja mal entendidos, gostava que ficasse claro que, quando falo em chefes e empresas, não estou a ironizar nem a "acusar" alguém ou alguma organização em especial. Estou apenas a usar pequenos detalhes da minha experiência para tentar ilustar um ponto de vista. Tive a sorte de trabalhar num negócio e numa empresa de topo e de ter várias chefias de qualidade, pessoas com as quais continuo a manter saudáveis relações. Com algumas, mesmo de grande amizade. Aliás, ainda lhes hei-de bater à porta em Janeiro, quando regressar a Portugal e precisar de trabalhar mais alguns anos para ganhar dinheiro para uma nova expedição! :)
Mundo Universitário
Depois do Público Online, foi agora vez de outro órgão de comunicação se interessar por esta aventura, sob um ponto de vista que considero muito interessante.
A meio do caminho entre Melbourne e Bali, recebi e respondi a algumas perguntas colocadas pelo Mundo Universitário. O resultado desta “conversa virtual” pode ser lido na edição impressa do jornal, distribuída nas Universidades de todo o país, ou na sua edição online seguindo este link.
Confirmo que também tenho recebido propostas de compra de direitos para a realização de uma mini-série intitulada “Dr. Trip”, que contará a história de um médico lunático e viciado em Lexotan, que larga um lugar de efectivo no melhor hospital local para se dedicar a viajar e fazer surf à volta do mundo.
Ainda estou à espera do convite da Bárbara Guimarães para uma daquelas sessões íntimas à volta da mesinha redonda. Isso seria o auge… e, nessa altura, poderia recolher os lucros de tudo isto e ir fazer um MBA. Só para arranjar desculpa para ficar mais um ano sem fazer nada! ;)
Ilha dos Deuses
Viro a cabeça e sorrio. Ela cola a sua testa à minha e ri-se. Eu não aprendi quase nada de Bahasa e ela ainda não fala inglês, por isso a nossa comunicação baseia-se apenas em gestos e caretas. Com o pau do gelado que acabou de comer, penteia-me e faz-me alguma coisa nos braços, que eu imagino ser um tratamento de beleza. Agradeço e continuo a sorrir.
A Cynthia tem exactamente a idade do meu sobrinho. Nasceram no mesmo mês e em dias muito próximos.
- Daqui a dois anos vou trazê-lo cá para se conhecerem. Aposto que vai ser amor à primeira vista!
- Andrééé, nooo! No boyfriend yet!
A Suzy, mãe da Cynthia, é dona do warung onde fico sempre na praia de Balangan. É fantástica esta experiência dos warungs. A familiaridade e confiança que se cria com estas pessoas que, dia após dia, nos abrem as “portas” da sua cabana de praia, nos guardam as coisas enquanto vamos para a água, nos preparam um prato de comida, nos fazem uma massagem, nos deixam descansar ou dormir a sesta… toda esta vivência é uma experiência única que eu nunca vou conseguir exprimir por palavras.
No primeiro dia que cheguei a Balangan e ao warung da Susy, tinha acabado de “oferecer” 70.000 ruphias (5,5 Euros) a um polícia, por andar a guiar a mota sem licença de condução internacional, e sobrou-me apenas o suficiente para uma boa pratada de noodles (1,6 Euros).
- Posso beber uma Sprite e pagar amanhã?
- Yeees, no probléme.
Nos dois dias seguintes, o mar esteve mais pequeno e eu fui surfar para Uluwatu, uma outra praia um bocado mais para sul. No quarto dia, voltei a Balangan e a primeira coisa que disse à Suzy foi que não me tinha esquecido do que estava a dever.
- Don’t worry. Há quem ande com uma semana de crédito.
- A sério? E nunca se esquecem de pagar?
- Se alguém se esquecer, eu também me esqueço. Ou se tem karma ou não, eu não me quero zangar por causa disso.
Diz-se, no meio do surf, que todo o surfista tem que ir pelo menos um vez ao Havai. Eu nunca fui ao Havai, nem tenho ainda as ilhas na minha shortlist… mas digo, sem hesitar, que todo o surfista (de prática ou de alma) tem que vir, pelo menos uma vez, a Bali. Este é, sem sombra de dúvidas, “O” destino. Não conheço ainda lugar no mundo que reúna tanta coisa boa ao mesmo tempo: praias, ondas, clima, paisagens, cores, cheiros, preços, cultura, espiritualismo… e, não vou dizer isto da boca para fora, pessoas. Gente real, verdadeira, desprendida e simples de sentimentos.
Lembremo-nos que este povo tem sido fustigado nos últimos anos por tudo o que é desgraças naturais e humanas (terramotos, tsunamis, atentados bombistas, desastres de avião, décadas de governação opressiva e desonesta). E, ainda assim, nunca falta um sorriso sincero, um jeito especial no trato, uma preocupação autêntica, um interesse genuíno. Há uma aura especial em Bali e nas suas gentes. E isso sente-se e é contagiante até para o mais bruto e indiferente dos seres humanos.
Como disse o Pedro Adão e Silva, é “um pedaço de terra assustadoramente próximo de um mundo perfeito”.
O poder dos sonhos
Nesse sonho, sou obrigado a regressar a Portugal para tratar das burocracias que me permitam continuar a viagem. O plano é deixar de lado a América do Sul e apanhar novamente o trilho na Indonésia. Mas, quando chego a Portugal, e por uma razão inexplicável muito estranha (os sonhos são assim), volto a trabalhar alguns dias no meu antigo emprego e embrulho-me tanto com projecto qualquer que me esqueço de comprar os bilhetes de avião para e acabo por já não conseguir ir para Bali. Acordo sempre nessa altura meio assustado e demoro alguns segundos a perceber onde estou e que tudo não passa de um sonho.
Como já perceberam, já estou na Indonésia. Mas o sonho pode ter estado muito perto de, numa versão ligeiramente diferente, se tornar realidade. Não vos quero maçar com mais histórias recambulescas de passagens de fronteiras e entradas em países mas esta foi, sem dúvida, a mais complicada. O meu passaporte temporário é válido até Janeiro 2008 mas alguns países exigem passaportes com, pelo menos, mais de 6 meses de validade. É óbvio que eu sabia disto à partida mas foi um detalhe de que não me lembrei com o novo documento.
Para resumir, o episódio começou com o guarda de emigração a dizer “Temos um problema, não podemos dar-lhe visto e vai ter que regressar a Darwin” e acabou com um suborno de 100 dólares americanos ao responsável de serviço, sugerido pelo próprio. Os “entretantos”, foram um processo de negociação muito complicado, muitos nervos e uma ida escoltada à caixa ATM para levantar dinheiro.
O raio do assalto, que já lá vai há muito, deixou tentáculos por todo o lado e, todos os dias, descubro mais uma coisinha, mais um pormenor, mais uma rasteira. Hoje tive que pagar mais 7 dólares a um polícia de trânsito porque a minha licença de condução internacional (o documento mais estúpido que conheço) também ficou algures na Costa Rica.
O problema da Indonésia está resolvido mas, agora, estou outra vez na corda bamba em relação aos próximos destinos e é bem provável que tenha que alterar radicalmente a rota programada. Ou isso, ou passo a viajar com uma mala cheia de notas!
Surf no pé
O Pedro é um conversador nato e ficou muito entusiasmado com a minha viagem. Quis dar-me contactos de amigos na Austrália e na Ásia, pediu-me para lhe ligar na véspera para se despedir, etc.
- Gostava de ter tido coragem para fazer o mesmo na altura certa. Não te vais arrepender, de certeza! – disse-me do fundo da sua sabedoria.
Nesse dia contou-nos uma história que, acredito eu, não se importará que partilhe aqui para efeitos de entretenimento puro.
Um certo dia, quando trabalhava numa empresa que dependia de uma multinacional inglesa, o CEO inglês veio visitar as instalações de Portugal e, naturalmente, estava tudo em pulgas e preparado para fazer grandes apresentações e todas aquelas coisas que, muitas vezes, se fazem precisamente para “inglês ver”.
Nesse dia estavam boas ondas e o Pedro tinha aproveitado a hora de almoço para ir fazer um surfezinho mas, no regresso, apanhou muito trânsito e acabou por chegar ligeiramente atrasado à reunião. O suficiente para estarem todos sentados à espera dele.
- Sir, este é o nosso activo Director de Marketing – apresentou o Director Geral quando o Pedro entrou na sala.
Ao inclinar-se para cumprimentar o CEO, sentado do outro lado da mesa de reuniões, um jorro de água salgada caiu do nariz do Pedro em cima da mesa.
- Peço desculpa, – disse enquanto limpava a água com a manga do casaco - mas esta é a prova de que o nosso Director não estava a mentir quando me chamou de “activo Director de Marketing”. É que, em vez que ir encher a barriga com coisas que fazem mal à saúde, aproveitei a hora de almoço para ir fazer um pouco de surf.
Com a sua desenvoltura e elegância, o Pedro tornou uma situação que podia ser embaraçosa num momento descontraído e, segundo conta, a reunião foi um sucesso.
Alguns meses mais tarde, quando teve que se deslocar a Inglaterra em trabalho, o Pedro cruzou-se com o CEO à saída do edifício sede da empresa, enquanto ele “esperava o motorista do Rolls Royce”. Com algumas dúvidas se este se lembraria dele e à espera de algumas perguntas sobre volumes de negócios e taxas de crescimento, decidiu aproximar-se e cumprimentá-lo. Curiosamente, a reacção e a única pergunta do sério e formal CEO inglês foi a seguinte:
- Olá! Está bom? Claro que me lembro de si. E que tal, tem feito muito surf?
Eu levei muitas vezes a prancha dentro do carro para o trabalho. E fui muitas vezes fazer surf à hora do almoço. Também faltei a muitas aulas no secundário e na universidade… mas isso não é para aqui chamado agora!
Aquela prancha no meio dos bancos do carro e o cabelo molhado ou o sal nas sobrancelhas não enganavam ninguém nas reuniões de início de tarde. E, sejamos sinceros, não era propriamente uma imagem que jogava a favor de um jovem profissional dedicado.
Na Austrália, o surf está totalmente enraizado na cultura e na forma de vida das famílias. É o futebol do Brasil! A prancha tanto anda na caixa aberta do canalizador como dentro do jipe BMW do Director Comercial. E, muitas vezes, na carrinha da mãe dona de casa! Toda a cultura de mar e de tudo o que é vida outdoor impressiona qualquer mente que já se esqueceu de que a vida é muito mais do que as quatro paredes do escritório e um ecrã de computador.
É uma sociedade onde, pela minha visão de liberalista compulsivo, as regras, a vigilância e as penalizações já pisam um bocado a linha da liberdade individual (num sentido lato) e onde as pessoas se tornaram demasiado elitistas e pouco tolerantes com quem “pensa por si” e deseja fazer as coisas de forma diferente.
Mas, tenho que admitir, estes “meninos de coro” (porque não passam disso ao lado dos Latinos) conseguiram fazer desta ilhota, que os ingleses tiveram a amabilidade de lhes deixar, um bom lugar para viver.
Todas as moedas têm duas faces… e, às vezes, venha o Diabo e escolha! Eu, para já, escolhi antecipar alguns dias a ida para a Indonésia. Além de poupar alguns dólares, a verdade é que sinto falta do calor e da água quente. E, porque não admitir, de alguma agitação e desordem!
Down under
Ou melhor, vamos ser específicos:
Um português, com um passaporte temporário emitido e escrito à mão na Colômbia, que faria vergonha a qualquer falsificador de terceira categoria, chega à Austrália vindo da América do Sul, depois de vinte horas de viagem, com barba de cinco dias e ainda meio drogado pelos comprimidos para dormir.
O rapaz é uma pessoa honesta e minimamente séria, por isso responde com objectividade às perguntas idiotas do papelinho da Emigração. Não traz armas, drogas, nem mais de 10.000 dólares em dinheiro. Endereço na Austrália: “hotéis”; Contacto na Austrália: “nenhum”; Profissão actual: “nenhuma”. Pronto, está o caldo entornado!
- “Hotéis” não é suficiente. Preciso de uma morada concreta e um número de contacto.
Gosto pouco que me falem no tom que aquele imbecil o fez e, a maior parte das vezes, respondo na mesma moeda.
- Amigo, se for mais fácil para si, eu meto aí o endereço e o telefone de um hotel qualquer de 5 estrelas no centro da cidade. Quantos turistas vocês recebem por ano que têm um endereço ou um número de contacto no país?
- Pois… mas assim vou ter que o mandar falar com os oficiais de emigração.
- Então mande! Já percebi que você não vai ser grande ajuda. Só está aqui para pôr carimbos.
E pronto. A partir deste momento e com este último comentário sabia que a coisa agora ia apertar e demorar um bocado.
O visto electrónico de entrada também não estava a bater muito certo. Apesar de me ter lembrado de pedir um novo visto associado ao novo passaporte, um pequeno erro do agente de viagem fez com que viesse com o nome “Parente” quando, na verdade, o meu último nome é “Pereira”. “Pinto Pereira” para ser exacto, mas isso então ia-lhes dar a volta completa à cabeça. No passaporte, claro, estão todos os nomes de família… e tanto nome faz muita confusão a esta gente.
Depois de recolher a minha bagagem, sobre o olhar atento do tal oficial de Emigração, fui encaminhado para um corredor e uma divisão à parte. “Fixe, não há fila” – pensei.
- Compreendeu todas as perguntas deste papel de Emigração?
- Sim.
- Foi você mesmo que o preencheu? Esta é a sua letra e a sua assinatura?
- Sim.
- Foi você que fez as suas malas?
- Sim.
- Tudo o que está lá dentro é seu ou está à sua guarda?
Alto lá! Não me apanhas nessa... Lembrei-me imediatamente daquele filme da americana apanhada na Tailândia com droga que alguém lhe meteu na mochila. Respondi, agora no mesmo tom grave e formal com que as perguntas me eram colocadas.
- Que eu tenha conhecimento, sim.
- Alguém mexeu na sua bagagem depois de a ter fechado? - insistiu.
- Que eu tenha conhecimento, não. Mas com tantas perguntas começo a ter dúvidas.
O interrogatório e a revista que se seguiram foram bastante exaustivos. Primeiro com um, depois com outro. As mesmas perguntas, subtilmente disfarçadas. Algumas importantes, outra nem tanto… suponho que para ver se me apanhavam em contradições. O que vale é que eu sei mentir bem e a droga já tinha sido desmarcada na carteira da velhinha que ia sentada ao meu lado no avião!
- OK, estou satisfeito. Quero apenas reforçar, uma vez que neste momento não tem emprego, que o seu visto não lhe permite trabalhar. Welcome to Australia!
Ai o caraças… nunca mais ponho “nenhum”. A partir de agora vou pôr “escritor”, “poeta” ou outra coisa erudita qualquer. Ou me tratam melhor ou me gozam, mas ao menos não desconfiam de mim!
A Austrália é um país onde tudo se faz “by-the-book”. As regras são muitas e estão constantemente a serem lembradas, com sinais e letreiros por todo o lado. Não se bebe na rua, é preciso mostrar identificação e não se fuma nos bares, não se ultrapassa o limite de velocidade, as pessoas são muito pouco tolerantes para quem não cumpre à risca, mesmo que seja por desconhecimento ou engano… e os chavalos não roubam chocolates no supermercado!
Não quero generalizar… mas já viram como se comportam os Australianos (e os Americanos, já agora) na Ásia ou na América Central? É que, como não podem fazer nada em casa, vão chafurdar para a dos outros.
É só este pequeno detalhe que irrita o meu espírito latino aqui down under. E, claro, o preço de tudo! Ainda assim, tenho conseguido dar umas “tetadas” à rede wireless de alguém e nos quiosques Internet e ando a conduzir com uma carta de condução caducada (a minha válida foi roubada na Costa Rica).
Mas xiiiiuu… não vão “eles” estarem também a controlar o meu computador! ;)
Procura-se falsificador de jeito.
Back to the future
- 16:20. E aí?
- 4:20, não consigo dormir…
- Eheh, o mundo é um lugar estranho.
O Pedro, o amigo com quem “falo” no Messenger, chegou há dois dias a Singapura, para fazer algum tempo do programa de MBA, e ainda anda às voltas com o jet-lag.
Se os nossos calendários coincidirem, já está combinado bebermos uma Bintang no KU DE TA, em Bali.
Hoja, dia 7 de Setembro, deixo o continente americano rumo à Oceânia. Foram mais de quatro meses a “papar quilómetros” desde a Cidade do México até Pichilemu, no Chile. Cento e quarenta e dois dias desde que saí de Portugal. Dez países atravessados por terra. “Andar de avião não é viajar”, parece que diz o Cadilhe no seu último livro. Acho o que percebo o que ele quer dizer.
Quantas aventuras já vivi. Grandes ou pequenas, mas todos os dias haveria histórias para contar. Renovei toda a minha bagagem, o meu guarda-roupa e os gadgets electrónicos essenciais. Viajo com um passaporte temporário escrito à mão na Colômbia e com um cartão de débito que, às vezes, ainda teima em falhar. Conheci e surfei em algumas das melhores ondas e praias do mundo. Locais remotos que saem nas revistas e que fazem cada um de nós sonhar e aguentar mais um dia de trabalho para “um dia poder lá ir”, continuando, assim, a adiar a vida até à morte. Conheci gente, fiz novos amigos, vi o pânico e a desgraça pela janela de um autocarro. Tanta coisa, tanta. Seria impossível contar tudo em meia dúzia de textos num blog de Internet. A maior parte disto tudo, nunca conseguirei transpor para uma página de papel ou um ecrã de computador.
Amanhã, dia 8 de Setembro, não existe. Pelo menos para mim e para as pessoas que viajam no voo QF322, operado pela LAN. Ao voar sobre o Pacífico no sentido contrário ao movimento da terra, vai haver um momento em que passaremos da noite do dia 7 para a madrugada do dia 9. Assim, zás, como que por magia… e eu espero ir a dormir nessa altura, encharcado nos Lexotans que me chegaram desde Portugal, não vá o avião abanar tipo o DeLorean transformado em máquina do tempo. Também espero que o piloto não seja ninguém parecido com o “Doc”!
Farei uma escala na Nova Zelândia treze horas depois de ter saído de Santiago mas, no calendário, já terá passado um dia e meio. Começo, então, uma nova etapa desta Volta ao Mundo, com outras tantas histórias e aventuras, e acabadinho de poupar um dia de orçamento! ;)
Aproveitem bem o dia 8, eu já só volto depois de amanhã. Ou isso será já daqui pouco!? “Eheh, o mundo é um lugar estranho”.

